Sobre a
matéria publicada em 03 de junho pelo jornal goiano Diário da Manhã sobre
suposto “ritual satânico” a respeito de um evento intitulado “Xereca Satânica”, realizado na
Universidade Federal Fluminense (UFF), nós, do Coletivo Fluidez, gostaríamos de
nos solidarizarmos com as feministas da UFF e apoiar a perspectiva performativa
como um ato político. O objetivo do apoio é principalmente evitar a perpetuação
de preconceitos e deturpações acerca de manifestações artísticas e de cunho
cultural, cujo cerne era essencialmente de protesto.
É necessário contextualizar o ato, que não se tratou de nenhum “comportamento da Idade das Trevas”, como pontuado por alguns veículos de comunicação, mas que foi realizado como protesto performático contra uma onda crescente de estupros no município de Rio das Ostras – a qual, inclusive, não ganhou espaço na mídia. De acordo com informações circuladas na internet pelos organizadores e organizadoras do “Xereca Satânica”, o evento foi realizado por alunos e alunas do curso de Produção Cultural dentro da programação de uma disciplina cujo tema era Corpo e Resistência, que incluiu não somente a performance final, mas momentos de apresentações de seminários, discussões sobre as temáticas de opressões que as mulheres sofrem cotidianamente.
Dessa forma, quando contextualizamos o ato e a performance em seu devido lugar, como uma manifestação sobretudo artística, remetemos a autoras como a filósofa feminista Beatriz Preciado, que nos lembra que “as práticas artísticas e políticas performativas não encontram seu lugar próprio no corpo individual, visto que são sempre uma transformação dos limites entre o espaço privado e o espaço público. A performance é sempre a criação de um espaço político” (PRECIADO, 2004, p. 9, tradução nossa). A estratégia de reapropriação da sexualidade feminina como um lugar de reinvindicação política e estética também não é novidade para autoras como Judith Butler (2002), que a denominará “inversão performativa do insulto” (apud PRECIADO, 2004, p.8).
Lamentamos a deturpação dos fatos em prol de um sensacionalismo midiático, cada vez mais reiterado nos meios de comunicação e que em nada contribui para a reflexão crítica de sujeitos sociais.
Texto escrito por Paula Nogueira (jornalista e pesquisadora de gênero e sexualidade). Edição: Coletivo Fluidez.
Referências bibliográficas
BUTLER, J. “Acerca del término queer” en: Cuerpos que importan. Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”, Trad. Alcira Bixio, Buenos Aires : Paidos, 2002
DIÁRIO DA MANHÃ: Festa na UFF será investigada pela PF por ter rituais de magia negra e orgias sexuais. Goiânia, 03 jun. 2014. Disponível em: <http://www.dm.com.br/texto/178945-festa-na-uff-sera-investigada-pela-pf-por-ter-rituais-de-magia-negra-e-orgias-sexuais>. Acesso em: 03 jun. 2014.
PRECIADO, Beatriz. Género y performance: 3 episodios de un cybermanga feminista queer trans... Disponível em: <www.hartza.com/performance.pdf>.
É necessário contextualizar o ato, que não se tratou de nenhum “comportamento da Idade das Trevas”, como pontuado por alguns veículos de comunicação, mas que foi realizado como protesto performático contra uma onda crescente de estupros no município de Rio das Ostras – a qual, inclusive, não ganhou espaço na mídia. De acordo com informações circuladas na internet pelos organizadores e organizadoras do “Xereca Satânica”, o evento foi realizado por alunos e alunas do curso de Produção Cultural dentro da programação de uma disciplina cujo tema era Corpo e Resistência, que incluiu não somente a performance final, mas momentos de apresentações de seminários, discussões sobre as temáticas de opressões que as mulheres sofrem cotidianamente.
Dessa forma, quando contextualizamos o ato e a performance em seu devido lugar, como uma manifestação sobretudo artística, remetemos a autoras como a filósofa feminista Beatriz Preciado, que nos lembra que “as práticas artísticas e políticas performativas não encontram seu lugar próprio no corpo individual, visto que são sempre uma transformação dos limites entre o espaço privado e o espaço público. A performance é sempre a criação de um espaço político” (PRECIADO, 2004, p. 9, tradução nossa). A estratégia de reapropriação da sexualidade feminina como um lugar de reinvindicação política e estética também não é novidade para autoras como Judith Butler (2002), que a denominará “inversão performativa do insulto” (apud PRECIADO, 2004, p.8).
Lamentamos a deturpação dos fatos em prol de um sensacionalismo midiático, cada vez mais reiterado nos meios de comunicação e que em nada contribui para a reflexão crítica de sujeitos sociais.
Texto escrito por Paula Nogueira (jornalista e pesquisadora de gênero e sexualidade). Edição: Coletivo Fluidez.
Referências bibliográficas
BUTLER, J. “Acerca del término queer” en: Cuerpos que importan. Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”, Trad. Alcira Bixio, Buenos Aires : Paidos, 2002
DIÁRIO DA MANHÃ: Festa na UFF será investigada pela PF por ter rituais de magia negra e orgias sexuais. Goiânia, 03 jun. 2014. Disponível em: <http://www.dm.com.br/texto/178945-festa-na-uff-sera-investigada-pela-pf-por-ter-rituais-de-magia-negra-e-orgias-sexuais>. Acesso em: 03 jun. 2014.
PRECIADO, Beatriz. Género y performance: 3 episodios de un cybermanga feminista queer trans... Disponível em: <www.hartza.com/performance.pdf>.

